O outubro sombrio da tradição anglófona
Nenhum autor colou o próprio nome ao mês como Ray Bradbury. Sua coletânea de contos The October Country, de 1955, define logo no título um território imaginário: um lugar onde é sempre outubro, com neblina, folhas secas e um desconforto permanente. Em Something Wicked This Way Comes, romance de 1962 publicado no Brasil como Algo Sinistro Vem Aí, um parque de diversões chega a uma cidadezinha do interior a poucos dias do Halloween, e o outubro do livro funciona como contagem regressiva. Bradbury ainda escreveu The Halloween Tree (1972), uma viagem pela história das festas dos mortos feita para leitores jovens.
A associação é anterior a ele. Na poesia inglesa, o outono é a estação da maturidade e da perda, tema da célebre ode To Autumn, escrita por John Keats em 1819, e do soneto 73 de Shakespeare, que compara a idade do poeta ao ramo onde já quase não há folhas. Edgar Allan Poe é o outro nome inevitável: sua obra ambienta o horror em cenários outonais, e a leitura de Poe virou tradição de fim de outubro em escolas americanas. Nada disso é acaso de calendário — é o modo como uma cultura descreve o ano quando os dias encurtam.
No Brasil, o mês é de primavera
A literatura brasileira herdou as imagens europeias, mas não o clima. Casimiro de Abreu, morto aos 21 anos, reuniu sua obra sob o título As Primaveras, de 1859 — e no romantismo brasileiro a primavera é metáfora de juventude, de começo e de amor, exatamente o oposto do outubro melancólico do norte. Quando um poeta brasileiro do século XIX fala de folhas caindo, muitas vezes está copiando um cenário que não via pela janela.
A música popular brasileira resolveu isso à sua maneira: em vez de nomear meses, nomeia chuvas. "Águas de Março", de Tom Jobim, gravada em 1972, é provavelmente a peça mais conhecida a organizar o ano pelo clima brasileiro real — e ela marca o fim do verão, não o outono do calendário europeu. Vale ler sobre a primavera no Brasil e sobre o outubro do hemisfério norte para entender por que as duas literaturas divergem tanto no mesmo mês.
Outubro em canções e no cinema
Fora da literatura, o mês dá nome a obras muito diferentes entre si. O U2 lançou em 1981 o álbum October, cuja faixa-título é uma peça curta de piano e voz sobre passagem do tempo. O cinema soviético tem Outubro, de Sergei Eisenstein, de 1928, encomendado para os dez anos da Revolução Russa — ali o mês não é estação, é acontecimento político. E a trilha sonora informal do fim do mês tem um clássico incontornável: "Monster Mash", gravada por Bobby "Boris" Pickett em 1962, que virou a canção obrigatória de festa de Halloween há mais de sessenta anos.
Se a ideia é usar o mês em texto próprio, um conselho prático: verifique a estação antes de escrever. Metade das frases de outubro que circulam na internet descreve folhas secas e casacos em um país onde o mês é de ipê florido. Para material já adaptado ao Brasil, veja as frases de outubro, as frases de Halloween e outras curiosidades do mês.